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Capa | Celeste Leite dos Santos: Promotora, Doutora e Protetora.

  • Foto do escritor: Adela Villas Boas
    Adela Villas Boas
  • 2 de mai.
  • 17 min de leitura
Celeste Leite dos Santos

Versão em Português

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Há um tipo raro de vocação que não se satisfaz com a competência técnica. Que vai além do cumprimento do dever, além do título, além do reconhecimento. É aquela que nasce com uma pergunta incômoda, difícil de silenciar: o sistema está servindo a quem?


Celeste Leite dos Santos carrega essa pergunta desde o início da carreira, e passou mais de dezenove anos convertendo o desconforto em ação, a indignação em legislação e o silêncio das vítimas em política pública. Promotora de Justiça em Último Grau do Colégio Recursal do Ministério Público de São Paulo, doutora em Direito Civil pela USP, mestre em Direito Penal pela PUC-SP, com especialização em Direito Penal Econômico pela Universidade de Coimbra, e presidente do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima, o Pró-Vítima, ela é, antes de qualquer título, a mulher que lembrou ao sistema que a Justiça precisa, também, encarar os olhos de quem sofreu.


Ela cresceu ouvindo o som das ideias em movimento. Sua mãe, Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos, professora universitária, sempre esteve à frente do seu tempo, com inteligência, pioneirismo acadêmico e uma sabedoria admirável para lidar com os problemas da vida. Seu pai, o médico psiquiatra forense José Américo dos Santos, foi uma referência constante pela forma sempre precisa de analisar as situações. Irmãos, amigos próximos, pessoas que ficaram nos momentos difíceis e não apenas nas vitórias: essa é a teia de afeto e intelectualidade que moldou a mulher que Celeste se tornaria.


"Sou filha de professora universitária e foi pelo exemplo que recebi desde cedo que aprendi a valorizar o conhecimento", ela conta, com a naturalidade de quem não separa a formação humana da formação profissional.

Essa naturalidade, porém, foi testada muito cedo. Com apenas dois meses de carreira, Celeste assumiu a Promotoria Regional do Meio Ambiente em uma cidade do interior e se viu diante de um caso de proporções internacionais: uma mineradora que poluía rios com reflexos graves sobre a saúde da população. A resistência foi enorme. O custo pessoal, alto. Mas foi exatamente naquele momento, diante da pressão e da complexidade do caso, que algo se confirmou dentro dela.


Celeste Leite dos Santos

"A sensação de dever cumprido confirmou, para mim, que eu estava no caminho certo", diz. Não havia romantismo nessa certeza. Havia clareza, aquela que só aparece quando uma pessoa encontra, cedo, a dimensão do que é capaz de enfrentar.

O que moveu Celeste desde então não foi a ambição por posições ou reconhecimentos, mas uma insatisfação produtiva com o que via. Por anos, o sistema de justiça criminal brasileiro operou com uma lógica que hoje ela descreve com precisão: limitava-se à resposta penal, processava o réu, aplicava a pena e, no fim, a vítima seguia à margem, sem voz, sem acolhimento, sem perspectiva concreta de reconstrução. Não por descaso individual de ninguém, mas por uma lacuna estrutural que todos enxergavam e poucos se dispunham a preencher.


"Eu estava insatisfeita com um sistema que muitas vezes se limita à resposta penal, sem produzir transformações sociais significativas, especialmente para a vítima", ela explica. Foi dessa insatisfação que nasceu o Projeto AVARC — Acolhimento de Vítimas, Análise e Resolução de Conflitos, desenvolvido no âmbito do Ministério Público de São Paulo.

O AVARC não surgiu como uma proposta teórica de gabinete. Surgiu da união entre teoria e prática, entre o que Celeste estudava na academia e o que ela enxergava todos os dias no trabalho como promotora. O projeto foi reconhecido pelo Conselho Nacional do Ministério Público como uma das iniciativas mais relevantes da área, tornou-se lei no Distrito Federal e inspirou diretamente a proposta do Estatuto da Vítima, o Projeto de Lei nº 3.890/2020. Além disso, a proposta que Celeste apresentou ao então Conselheiro Marcelo Weitzel foi acolhida praticamente na íntegra, resultando em uma política nacional de proteção, apoio e desvitimização no âmbito do Ministério Público brasileiro. Cada um desses passos representa não apenas uma conquista técnica, mas uma transformação concreta na vida de pessoas que chegavam ao sistema com a dor ainda aberta e precisavam encontrar, nele, mais do que um processo.


"A partir da união entre teoria e prática, conseguimos recolocar a vítima no centro do sistema de justiça", ela resume, com a precisão de quem sabe exatamente o que construiu. É uma frase curta para uma conquista de décadas.

Celeste Leite dos Santos

Mas nenhuma trajetória de transformação real ocorre sem resistência. Quando Celeste assumiu a Diretoria da Mulher na Associação Paulista do Ministério Público, ao lado de colegas tão firmes e comprometidas quanto ela, passaram a lutar ativamente pela igualdade de direitos das mulheres dentro e fora da instituição. A reação não foi passiva. Houve tentativas de desqualificação da sua trajetória, um padrão que ela nomeia sem eufemismo e sem amargura: assédio moral organizacional.


"Aprendi, nesse processo, que o assédio moral organizacional existe, é real e ainda silencia muitas mulheres", diz. Também aprendeu que perseverar é essencial, e que mudar essa realidade exige coragem, estratégia e ferramentas concretas. Não basta a indignação; é preciso saber transformá-la em argumento, em projeto, em lei.

O que impressiona em Celeste não é apenas o que ela construiu, mas a forma como atravessou os processos de construção. Sem perder a essência. "O sucesso não me afastou da realidade nem do meu senso de responsabilidade", ela diz, com convicção. "Ele apenas reforçou a certeza de que ainda há muito trabalho pela frente e de que as conquistas só fazem sentido quando estão conectadas a um propósito coletivo." Há nessa frase uma filosofia inteira de carreira, e, mais do que isso, uma visão de mundo que recusa a individualização do sucesso. Para ela, uma vitória que não seja compartilhada, que não esteja ancorada em algo maior do que o ego, não tem peso real.


Essa postura se revela também no modo como ela cuida de si. Por trás de uma agenda que inclui o Ministério Público, o Pró-Vítima, a academia e as câmaras legislativas, existe uma mulher que aprendeu, ao longo dos anos, a respeitar seus próprios limites.


"Houve fases em que me dediquei quase integralmente ao trabalho, em detrimento do lazer e até da saúde física", ela admite. "Hoje, com mais maturidade, entendo que há tempo para tudo." Musculação, pilates, leituras prazerosas e viagens fazem parte de uma rotina que ela cultiva com disciplina, não por estética, mas por sustentabilidade. É a mesma lógica que aplica ao trabalho: sem equilíbrio, a caminhada não se sustenta com plenitude.

Ela celebra as conquistas com gratidão e com as pessoas certas. Muitas vezes ao lado do seu marido, Pedro Eduardo, com uma boa taça de vinho. Sempre compartilhando a vitória com quem caminhou junto. Tem um carinho especial por todos do Pró-Vítima: "somos mais do que um grupo, somos uma família", ela diz. "As vitórias ganham ainda mais sentido quando são divididas com quem esteve junto nos momentos mais difíceis." Há algo muito revelador nessa escolha de quem celebrar ao lado. Alguém que valoriza as pessoas que ficam nas horas difíceis, e não apenas nas cerimônias de reconhecimento, está fazendo uma afirmação silenciosa sobre o que, de fato, importa.


Quando perguntada sobre o que a mantém em movimento, depois de tudo o que já construiu, a resposta não vem de uma lista de metas. Vem de uma imagem concreta. "É a sensação de dever cumprido quando alguém sai de um atendimento verdadeiramente acolhedor com sua dor reconhecida, sua dignidade respeitada e uma perspectiva concreta de reconstrução", diz Celeste.


"É isso que dá sentido ao meu trabalho." Não é uma resposta abstrata sobre impacto ou legado. É a imagem de uma pessoa específica, saindo de um atendimento com algo que não entrou tendo: esperança com contornos reais.

Para quem está no início da jornada e busca propósito, ela tem um conselho que soa simples, mas exige coragem para ser aplicado: "Faça o que te realiza. Se não estiver satisfeito, seja instrumento da mudança que deseja ver. Não se preocupe excessivamente com o julgamento alheio: muitas vezes, o incômodo que você provoca é sinal de que está tocando em algo importante." E acrescenta algo que diz muito sobre o tipo de carreira que ela própria construiu: "nunca subestime o valor de estar cercado por pessoas que permanecem nos momentos difíceis, e não apenas nas vitórias."


Se pudesse voltar ao início, ela diz que se diria para se preocupar menos, confiar mais no processo e expressar gratidão com mais frequência. Daria também um lembrete gentil: cada desafio superado, cada pessoa que esteve ao lado, ajudou a construir a trajetória que trouxe até aqui. Não há nada a lamentar no caminho, apenas a reconhecer.


Promotora. Doutora. Protetora. Mas, acima de tudo, a mulher que fez uma pergunta simples e se recusou a parar até encontrar a resposta certa: onde está, nesse sistema, o lugar da vítima? A resposta que ela construiu não está apenas nos livros ou nas leis. Está em cada atendimento que termina com uma pessoa se sentindo, finalmente, vista.

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Capa | Celeste Leite dos Santos: Promotora, Doutora e Protetora.



English Version

English version


Cover Story | Celeste Leite dos Santos: Prosecutor, Doctor of Law, and Protector.


There is a rare kind of calling that refuses to be satisfied with technical competence alone. One that goes beyond fulfilling duties, beyond credentials, beyond recognition. It begins with an uncomfortable question, one that is hard to silence: Who is this system actually serving? Celeste Leite dos Santos has carried that question since the very beginning of her career, and she has spent more than nineteen years turning discomfort into action, outrage into legislation, and the silence of victims into public policy. A senior prosecutor with the São Paulo State Attorney's Office, a doctor of Civil Law from USP, a master's in Criminal Law from PUC-SP, with a specialization in Economic Criminal Law from the University of Coimbra, and president of the Brazilian Institute for Integral Victim Care, known as Pró-Vítima, she is, before any title, the woman who reminded the system that justice must also look the victim in the eye.


She grew up surrounded by the sound of ideas in motion. Her mother, Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos, was a university professor who was always ahead of her time, combining academic pioneering with a rare wisdom for navigating life's hardest problems. Her father, forensic psychiatrist José Américo dos Santos, was a constant model of analytical precision. Brothers, close friends, people who stayed through the difficult chapters and not only the victories: these are the threads of intellect and affection that shaped the woman Celeste would become.


"I am the daughter of a university professor," she says, "and it was through the example I received early on that I learned to value knowledge." She says it the way people do when they have never separated who they are from how they were formed.

That formation was tested almost immediately. Two months into her career, Celeste was assigned to the Regional Environmental Prosecutor's Office in a small city in the interior of São Paulo state, where she found herself facing a case of international proportions: a mining company polluting rivers that crossed national borders, with serious consequences for public health. The resistance she encountered was fierce. The personal cost was real. But something crystallized in that moment that no law school curriculum could have produced.


"The feeling of duty fulfilled confirmed, for me, that I was on the right path," she recalls. There was no sentimentality in that conviction. There was clarity, the kind that only comes when a person confronts, early, the full measure of what she is capable of facing.

What has driven Celeste since that early confrontation has never been ambition for titles or position. It has been a productive dissatisfaction with what she observed. For years, Brazil's criminal justice system operated according to a logic she now describes with unsettling precision: it prosecuted the defendant, handed down the sentence, and closed the case, while the victim remained on the margins, without a voice, without support, without any concrete path toward rebuilding a life. Not because of individual negligence, but because of a structural gap that everyone could see and few were willing to address. "I was unsatisfied with a system that often limits itself to criminal punishment without producing meaningful social transformation, especially for the victim," she explains. From that dissatisfaction came AVARC, the Victim Support, Conflict Analysis and Resolution Project, developed within the São Paulo State Attorney's Office.


AVARC was never a theoretical proposal drafted in an air-conditioned office. It was built from the space between what Celeste was studying in academia and what she was witnessing every day as a prosecutor. The project was recognized by Brazil's National Council of the Attorney General's Office as one of the most significant initiatives in the field, became law in the Federal District, and directly inspired the Victim Statute proposal, Federal Bill No. 3,890/2020. The framework she presented to then-Councilman Marcelo Weitzel was adopted virtually in its entirety, producing a national policy of protection, support and victim recovery within the Brazilian Attorney's Office. Every one of those steps represents not just a technical achievement but a concrete change in the lives of people who walked into the system still carrying open wounds and needed it to offer more than a court date. "By bringing theory and practice together," she says, "we managed to put the victim back at the center of the justice system." It is a compact sentence for a decades-long accomplishment.


But no real transformation happens without pushback. When Celeste took on the leadership of the Women's Division within the São Paulo State Attorney's Association, alongside colleagues as resolute and committed as she was, they began an active fight for gender equality both inside and outside the institution. The reaction was not polite disagreement. There were deliberate attempts to undermine her credibility, a pattern she identifies without euphemism and without bitterness as organizational workplace harassment. "I learned, through that process, that institutional workplace harassment exists, it is real, and it still silences many women," she says. She also learned that persistence is not enough on its own. Changing entrenched realities requires courage, yes, but also strategy and specific tools. Outrage, she understood, must be translated into argument, into project, into law.


What sets Celeste apart is not only what she has built, but how she has moved through the process of building it, without losing the core of who she is. "Success didn't distance me from reality or from my sense of responsibility," she says. "It only reinforced the certainty that there is still a lot of work ahead and that achievements only make sense when they are connected to a collective purpose." There is an entire career philosophy embedded in that sentence, and more than that, a worldview that refuses to privatize success. For Celeste, a victory that isn't shared, that isn't anchored in something larger than the self, doesn't carry real weight.


That philosophy shows up in the way she takes care of herself, too. Behind a schedule that includes the Attorney's Office, Pró-Vítima, academia and the legislative chambers, there is a woman who learned, over time, to respect her own limits. "There were phases when I dedicated myself almost entirely to work, at the expense of leisure and even physical health," she acknowledges. "Today, with more maturity, I understand that there is time for everything." Strength training, Pilates, good books and travel are part of a routine she maintains with discipline, not for appearances, but for sustainability. The same logic she applies at work: without balance, the journey cannot be sustained with any real fullness.


She marks her victories with gratitude and with the right people. Often alongside her husband, Pedro Eduardo, over a good glass of wine. Always sharing the moment with those who walked alongside her. She has a particular tenderness for everyone at Pró-Vítima. "We are more than a group," she says. "We are a family. Victories mean even more when they are shared with those who were there in the hardest moments." There is something deeply revealing in the way she chooses who to celebrate with. Someone who values the people who stay through the hard times, and not only for the ceremonies, is making a quiet statement about what actually matters.


When asked what keeps her going, after everything she has already built, her answer does not come as a list of goals or milestones. It comes as a specific image. "It is the feeling of duty fulfilled when someone leaves a genuinely supportive session with their pain acknowledged, their dignity respected and a concrete perspective on rebuilding," she says. "That is what gives meaning to my work." It is not an abstract statement about impact or legacy. It is the image of one specific person walking out of one specific room with something they did not walk in with: hope that has a shape.


For those at the beginning of their careers, searching for purpose, her advice is the kind that sounds simple but demands real courage to follow: "Do what fulfills you. If you are not satisfied, be the instrument of the change you want to see. Do not worry excessively about what others think: often, the discomfort you provoke is a sign that you are touching something important." And she adds something that says everything about the kind of career she herself has built: "Never underestimate the value of being surrounded by people who stay in the difficult moments, not only in the victories."


If she could go back to the beginning, she says she would tell herself to worry less, trust the process more, and express gratitude more often. She would also leave one gentle reminder: every challenge overcome, every person who stood alongside her, helped construct the path that brought her to where she is now. There is nothing in the journey to regret, only to recognize.


Prosecutor. Scholar. Protector. But above all, the woman who asked a simple question and refused to stop until she found the right answer: where, inside this system, is the victim's place? The answer she built does not live only in books or legislation. It lives in every session that ends with a person finally feeling seen.

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Cover Story | Celeste Leite dos Santos: Prosecutor, Doctor of Law, and Protector.



Spanish Version

Versión en Español


Portada | Cover Story | Celeste Leite dos Santos: Fiscal. Doctora. Protectora.


Hay una vocación infrecuente que no se conforma con la competencia técnica. Que va más allá del cumplimiento del deber, más allá del título, más allá del reconocimiento. Es aquella que nace con una pregunta incómoda, difícil de acallar: ¿a quién sirve realmente este sistema? Celeste Leite dos Santos lleva esa pregunta consigo desde el inicio de su carrera, y ha pasado más de diecinueve años convirtiendo la incomodidad en acción, la indignación en legislación y el silencio de las víctimas en política pública. Fiscal superior del Colegio Recursal de la Fiscalía del Estado de São Paulo, doctora en Derecho Civil por la USP, máster en Derecho Penal por la PUC-SP, con especialización en Derecho Penal Económico por la Universidad de Coimbra, y presidenta del Instituto Brasileño de Atención Integral a la Víctima, el Pró-Vítima, es, antes que cualquier título, la mujer que le recordó al sistema que la Justicia también debe mirar a los ojos a quien ha sufrido.


Creció escuchando el rumor de las ideas en movimiento. Su madre, Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos, profesora universitaria, estuvo siempre por delante de su tiempo, con una inteligencia pionera y una sabiduría admirable para afrontar los problemas de la vida. Su padre, el médico psiquiatra forense José Américo dos Santos, fue una referencia constante por la precisión con que analizaba cada situación. Hermanos, amigos cercanos, personas que permanecieron en los momentos difíciles y no solo en las victorias: esa es la red de afecto e intelectualidad que forjó a la mujer en que Celeste se convertiría. "Soy hija de una profesora universitaria y fue a través del ejemplo que recibí desde pequeña que aprendí a valorar el conocimiento", cuenta, con la naturalidad de quien nunca ha separado la formación humana de la formación profesional.


Esa naturalidad, sin embargo, fue puesta a prueba muy pronto. Con apenas dos meses de carrera, Celeste asumió la Fiscalía Regional de Medio Ambiente en una pequeña ciudad del interior del estado y se encontró ante un caso de proporciones internacionales: una empresa minera que contaminaba ríos con graves consecuencias para la salud de la población. La resistencia fue enorme. El coste personal, elevado. Pero fue precisamente en aquel momento, frente a la presión y la complejidad del caso, cuando algo se confirmó dentro de ella.


"La sensación de deber cumplido me confirmó que estaba en el camino correcto", recuerda. No había romanticismo en esa certeza. Había claridad, esa que solo aparece cuando una persona descubre, temprano, la verdadera dimensión de lo que es capaz de enfrentar.

Lo que ha movido a Celeste desde entonces no ha sido la ambición por cargos ni por reconocimientos, sino una insatisfacción productiva con lo que observaba. Durante años, el sistema de justicia penal brasileño funcionó con una lógica que ella describe hoy con una precisión perturbadora: se limitaba a la respuesta penal, procesaba al acusado, aplicaba la pena y, al final, la víctima permanecía en los márgenes, sin voz, sin acompañamiento, sin una perspectiva concreta de reconstrucción vital. No por negligencia individual, sino por una brecha estructural que todos veían y pocos estaban dispuestos a colmar.


"Estaba insatisfecha con un sistema que muchas veces se limita a la respuesta penal sin producir transformaciones sociales significativas, especialmente para la víctima", explica. De esa insatisfacción nació el Proyecto AVARC, Acogida de Víctimas, Análisis y Resolución de Conflictos, desarrollado en el seno de la Fiscalía del Estado de São Paulo.

El AVARC no surgió como una propuesta teórica elaborada en un despacho. Surgió de la conjunción entre la teoría y la práctica, entre lo que Celeste estudiaba en la academia y lo que presenciaba cada día como fiscal. El proyecto fue reconocido por el Consejo Nacional de la Fiscalía General como una de las iniciativas más relevantes del ámbito, se convirtió en ley en el Distrito Federal e inspiró directamente la propuesta del Estatuto de la Víctima, el Proyecto de Ley nº 3.890/2020. Además, la propuesta que Celeste presentó al entonces Consejero Marcelo Weitzel fue acogida prácticamente en su integridad, dando lugar a una política nacional de protección, apoyo y desvictimización en el ámbito de la Fiscalía brasileña. Cada uno de esos pasos representa no solo un logro técnico, sino una transformación concreta en la vida de personas que llegaron al sistema con la herida todavía abierta y necesitaron encontrar en él algo más que un expediente. "Uniendo teoría y práctica, conseguimos devolver a la víctima al centro del sistema de justicia", resume, con la precisión de quien sabe exactamente lo que ha construido. Es una frase breve para un logro que costó décadas.


Ninguna trayectoria de transformación real ocurre, sin embargo, sin resistencia. Cuando Celeste asumió la Dirección de la Mujer en la Asociación Paulista de la Fiscalía, junto a compañeras tan firmes y comprometidas como ella, emprendieron una lucha activa por la igualdad de derechos de las mujeres dentro y fuera de la institución. La reacción no fue pasiva. Hubo intentos deliberados de descreditar su trayectoria, un patrón que ella nombra sin eufemismos y sin amargura: acoso institucional. "Aprendí, en ese proceso, que el acoso moral organizacional existe, es real y todavía silencia a muchas mujeres", afirma. También aprendió que perseverar no basta por sí solo: cambiar realidades arraigadas exige valentía, pero también estrategia y herramientas concretas. La indignación, comprendió, debe traducirse en argumento, en proyecto, en ley.


Lo que distingue a Celeste no es únicamente lo que ha construido, sino la manera en que ha atravesado ese proceso de construcción sin perder su esencia. "El éxito no me alejó de la realidad ni de mi sentido de responsabilidad", dice con convicción. "Solo reforzó la certeza de que aún queda mucho trabajo por delante y de que los logros solo tienen sentido cuando están ligados a un propósito colectivo." Hay en esa frase una filosofía entera de carrera y, más allá de eso, una visión del mundo que rechaza la privatización del éxito. Para ella, una victoria que no se comparte, que no está anclada en algo mayor que el propio ego, carece de peso real.


Esa misma postura se revela en la forma en que cuida de sí misma. Detrás de una agenda que incluye la Fiscalía, el Pró-Vítima, la academia y las cámaras legislativas, hay una mujer que ha aprendido con los años a respetar sus propios límites. "Hubo etapas en que me dediqué casi íntegramente al trabajo, en detrimento del ocio e incluso de la salud física", admite. "Hoy, con más madurez, entiendo que hay tiempo para todo." El entrenamiento de fuerza, el pilates, las lecturas placenteras y los viajes forman parte de una rutina que cultiva con disciplina, no por cuestión estética, sino por sostenibilidad. La misma lógica que aplica al trabajo: sin equilibrio, el camino no puede recorrerse con plenitud.


Celebra sus logros con gratitud y en la compañía adecuada. A menudo junto a su marido, Pedro Eduardo, con una buena copa de vino. Siempre compartiendo el momento con quienes caminaron a su lado. Siente un cariño especial por todos en el Pró-Vítima. "Somos más que un grupo", dice. "Somos una familia. Las victorias cobran aún más sentido cuando se comparten con quienes estuvieron presentes en los momentos más difíciles." Hay algo muy revelador en esa forma de elegir con quién celebrar. Quien valora a las personas que permanecen en los momentos duros, y no solo en las ceremonias de reconocimiento, está haciendo una afirmación silenciosa sobre lo que verdaderamente importa.


Cuando se le pregunta qué la mantiene en movimiento, después de todo lo que ha construido, su respuesta no llega en forma de lista de objetivos. Llega como una imagen concreta. "Es la sensación de deber cumplido cuando alguien sale de una atención verdaderamente acogedora con su dolor reconocido, su dignidad respetada y una perspectiva real de reconstrucción", dice Celeste. "Eso es lo que da sentido a mi trabajo." No es una declaración abstracta sobre impacto o legado. Es la imagen de una persona específica, saliendo de una sala con algo que no tenía al entrar: esperanza con contornos reales.


Para quienes están al inicio de su camino y buscan propósito, su consejo suena sencillo, pero exige verdadera valentía para aplicarse: "Haz lo que te realiza. Si no estás satisfecho, sé el instrumento del cambio que deseas ver. No te preocupes en exceso por el juicio ajeno: muchas veces, la incomodidad que provocas es señal de que estás tocando algo importante." Y añade algo que dice mucho sobre el tipo de carrera que ella misma ha construido: "Nunca subestimes el valor de estar rodeado de personas que permanecen en los momentos difíciles, y no solo en las victorias."


Si pudiera volver al principio, dice que se diría a sí misma que se preocupara menos, que confiara más en el proceso y que expresara gratitud con mayor frecuencia. También se dejaría un recordatorio amable: cada obstáculo superado, cada persona que estuvo a su lado, ayudó a construir la trayectoria que la trajo hasta aquí. No hay nada en el camino que lamentar, solo que reconocer.


Fiscal. Doctora. Protectora. Pero, por encima de cualquier título, la mujer que hizo una pregunta sencilla y se negó a detenerse hasta encontrar la respuesta correcta: ¿dónde está, en este sistema, el lugar de la víctima? La respuesta que ella construyó no vive únicamente en los libros ni en las leyes. Vive en cada atención que termina con una persona sintiéndose, por fin, vista.

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Portada | Cover Story | Celeste Leite dos Santos: Fiscal. Doctora. Protectora.

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