Quando o Trabalho Adoece por Francisco Sanchez
- Francisco Usero Sanchez

- 4 de abr.
- 2 min de leitura

Em 32 anos de carreira no setor bancário, liderando pessoas e negócios, vi metas aumentarem, tecnologias evoluírem e resultados se tornarem cada vez mais exigidos. Mas há algo que cresceu ainda mais rápido do que tudo isso: o adoecimento mental.
Não estamos falando de casos isolados. Estamos falando de um padrão. De um sistema que adoece enquanto cobra produtividade como se nada estivesse acontecendo. Os números não deixam espaço para romantização.
O Brasil, segundo documento da OMS - Organização Mundial da Saúde (2019), lidera o ranking mundial de ansiedade, com 9,3% da população afetada — mais de 18 milhões de pessoas. Também está entre os países com maiores índices de depressão e estresse.
E, no meio desse cenário, o burnout deixou de ser exceção para se tornar rotina silenciosa dentro de empresas que, muitas vezes, ainda tratam o problema como fragilidade individual, e não como falha estrutural.
A pergunta que precisa ser feita é simples — e incômoda: até que ponto o ambiente de trabalho está contribuindo para isso? Pressão constante, metas irreais, jornadas exaustivas e uma cultura que valoriza quem “aguenta mais” ao invés de quem vive melhor. O resultado? Corpos presentes, mentes exaustas.
A criação da Lei 14.831/2024, que institui o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, e a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que é a diretriz base de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil, estabelecendo as obrigações gerais para empregadores e empregados, indicam um avanço importante.
Finalmente, começa-se a exigir das empresas algo básico: responsabilidade sobre o impacto que causam na saúde mental de seus colaboradores. Mas leis, por si só, não mudam cultura. E é justamente a cultura que ainda precisa ser confrontada. Porque não basta oferecer terapia como benefício corporativo enquanto se mantém um ambiente que adoece. Sim, existem tratamentos eficazes — Terapia Cognitivo-Comportamental, Psicanálise, Terapias Humanistas, ACT, TRG, além do acompanhamento psiquiátrico quando necessário. E sim, hábitos saudáveis ajudam: exercício físico, sono adequado, alimentação equilibrada. Mas nenhuma dessas soluções será suficiente se continuarmos ignorando a raiz do problema.
A verdade é desconfortável: estamos normalizando o esgotamento. E talvez seja hora de parar de tratar a saúde mental como um problema individual a ser “resolvido” fora do expediente, e começar a encará-la como uma responsabilidade coletiva — dentro dele. Porque no fim das contas, não é só sobre trabalhar melhor. É sobre viver melhor. E nenhum resultado justifica uma vida que, aos poucos, deixa de ser vivida para apenas ser suportada.
Quando o Trabalho Adoece por Francisco Sanchez
Administrador, especialista em gestão de pessoas e recursos humanos @franciscosanchez379




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