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O que realmente buscamos por Henry Ayres

  • Foto do escritor: Henry Ayres
    Henry Ayres
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura
Henry Ayres

Existe uma frase de Emily McDonald que parece simples até você sentar com ela por tempo suficiente para que ela comece a desarrumar suas certezas.


"Você não quer a coisa que você quer. Você quer o sentimento que você acredita que a coisa que você quer vai te trazer."

O que ela revela não é nada agradável: a maioria das nossas decisões, desde as mais simples até aquelas que transformam toda uma vida, talvez nunca tenha sido realmente sobre o objeto em si. Sempre foi sobre o estado interno que imaginamos estar além dele.


Pense no que move alguém a aceitar um cargo, mudar de cidade, comprar uma casa, terminar um relacionamento, começar outro. Listamos os motivos com a confiança de quem acredita estar olhando para a conquista em si. A casa maior, o salário melhor, o corpo diferente, o reconhecimento. Mas quando McDonald insiste que o desejo verdadeiro está uma camada abaixo, ela está apontando para algo que a neurociência também sussurra: nós não somos atraídos por objetos, somos atraídos por previsões de sensação.


O cérebro antecipa como nos sentiremos ao alcançar um objetivo, e é essa antecipação, não o objetivo em si, que nos motiva a agir. A casa representa uma promessa de segurança. O cargo simboliza uma promessa de importância. O elogio sugere uma promessa de pertencimento. Buscamos o sentimento e utilizamos o objeto ou a situação para obtê-lo.


O detalhe inquietante é que as coisas raramente atendem às nossas expectativas pelo tempo que imaginávamos. Todos conhecem essa experiência na prática. O carro novo fascina por algumas semanas, mas logo se torna apenas o carro. A promoção traz alívio por um trimestre, mas rapidamente esse alívio se transforma em uma nova ansiedade, um novo patamar a ser alcançado. Os psicólogos chamam isso de adaptação hedônica, essa habilidade quase cruel que temos de tornar comum aquilo que antes parecia ser o objetivo principal.


Mas talvez o termo técnico esconda algo mais interessante do que descreve. Talvez a coisa "deixe de funcionar" não porque nos acostumamos, mas porque ela nunca foi realmente o que buscávamos. O sentimento que ela prometia já tinha desaparecido, ou nunca chegou, e acabamos lidando com o vazio, perplexos por ele não ter mais peso algum.


É neste ponto que a ideia de McDonald deixa de ser apenas uma observação e se transforma em um convite. Se o que buscamos é sempre uma sensação, a questão deixa de ser "o que eu quero" e se torna "o que eu acredito que isso vai me fazer sentir". Esta segunda pergunta possui um poder que a primeira não tem: ela pode ser respondida agora.


Sentir-se seguro. Sentir-se visto. Sentir-se livre. Sentir-se em paz. Sentir-se digno. A lista é curta, repetitiva, quase decepcionante na sua simplicidade. Passamos a vida construindo arquiteturas elaboradas de conquista para chegar a estados que cabem em uma palavra.


Não estou sugerindo que abandonemos a ambição, que deixemos de desejar a casa, a posição ou o corpo. Isso seria irreal, e ninguém vive o desapego apenas para mostrar aos outros. O que a frase propõe é algo mais sutil e mais valioso: a oportunidade de agir no mundo com clareza, em vez de agir por impulso.


Talvez seja por isso que tantas conquistas vêm com um silêncio peculiar. Aquele instante, no topo da escada que levou anos para subir, em que você se questiona por que não sente o que tinha certeza de que sentiria. A resposta desconfortável é que o sentimento nunca esteve guardado lá no alto. Ele só pode ser gerado onde você sempre esteve, no único lugar onde qualquer experiência ocorre: dentro de você. A escada era real, o esforço foi autêntico, mas o destino sempre foi um endereço interno.


Fico refletindo que a maturidade, no fundo, talvez seja apenas isso: a transição gradual de "quero a coisa" para "compreendo o sentimento que estou buscando" e, por fim, para "consigo começar a sentir um pouco dele agora, durante o percurso, não apenas na linha de chegada". Não para eliminar o desejo, mas para trazê-lo de volta à sua dimensão humana. A coisa volta a ser o que sempre deveria ter sido, um meio, e não o guardião da sua felicidade. E você volta a ser o que sempre foi sem saber, a única pessoa capaz de assinar o contrato que entrega o que você realmente busca.



Artigo: O que realmente buscamos por Henry Ayres


Instagram: @henry.ayres

Henry Ayres é Head de Marca, Conteúdo e Digital na Samsung Brasil e é um profissional de marketing com trajetória construída na interseção entre tecnologia, mídia, conteúdo e branding, com foco em gerar conexões reais entre marcas e pessoas.

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